PSICANÁLISE NA CONTEMPORANEIDADE – TERAPIA COGNITIVA

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

segunda-feira, 25 de março de 2013

A liberdade da ciência

 
Sempre se discutiu e preconizou que a ciência é um empreendimento aberto a críticas e evolui a partir das próprias falhas. Esse foi e deve ser o princípio que a rege, pois se for diferente, ela passa a ser outro tipo de conhecimento, que não ciência. Esse é, com certeza, a força que possui: submeter as boas (e até mesmo más) ideias aos pares. A crítica das idéias é o seu motor.

 

Para que estas ideias sejam veiculadas, os principais mecanismos de divulgação são os periódicos científicos. Neles, os próprios pares – os cientistas – são os agentes que avaliam se o que está escrito nos artigos foi adequadamente redigido, se o método aplicado está em harmonia com os cânones da ciência e se os resultados conseguem efetivamente confirmar o que já se sabe ou se há a inclusão de algo diferenciado. Após isso, há a indicação ou não de publicação do artigo.

Na maioria dos bons periódicos esta avaliação é feita às cegas, ou seja, quem recebe o artigo encaminhado não sabe quem o escreveu. Assim, haveria uma avaliação mais segura, visto que eventuais influências políticas seriam evitadas, por um processo chamado de avaliação cega por pares (blind peer review).

 

Mas é interessante observar que, se o processo blind peer review é confiável, algumas políticas editoriais podem ser plenamente questionáveis. Recentemente enviei um artigo para uma revista muito bem qualificada, com assunto totalmente compatível com a proposta temática do periódico e com método adequado. Entretanto, para minha surpresa, recebi uma resposta rápida (o que também não é muito comum em periódicos bastante visados) e amarga: o artigo simplesmente não foi aceito, com pelo menos duas justificativas questionáveis – uma delas dizia que a “relevância” não estava de acordo com os critérios da revista, e a outra dizia que, em virtude do “grande volume” de submissões, muito maior do que podem publicar, ele não passou na pré-avaliação.

Não teria nenhum problema em aceitar um não por uma má qualidade do artigo, ou por ter resultados discutíveis, ou mesmo por outros fatores. Mas isso sequer aconteceu. Não tenho uma visão ingênua e romântica de que não há influências nos processos de seleção de artigos, tanto que aconteceu neste caso como acontece em tantos outros. O que acho deplorável é que há critérios obscuros que interferem na produção da ciência, às vezes com a conivência e aceitação dos próprios cientistas. Reservas de mercado em publicações e outros fatores devem ser combatidos e denunciados. Infelizmente não possuo nenhuma prova cabal disto, e penso que ninguém possua. Mas peço aos editores de periódicos científicos um sério exame de consciência, para que não se priorizem elementos não científicos na seleção. Dar uma oportunidade igualitária a todos deve ser característica da boa ciência e dos bons periódicos.

 
 
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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A psicologia não é a ciência da alma

 
Uma das primeiras coisas que um estudante de psicologia discute na faculdade é a definição de sua futura área de atuação. No primeiro semestre, as disciplinas apresentam um histórico de como a psicologia foi se constituindo, e constata-se que, em seus primórdios, ela era definida como o estudo (logos) da alma ou espírito (psiqué).

 

De acordo com o professor William Gomes, do instituto de psicologia da UFRGS, o termo apareceu inicialmente como título de um livro publicado em 1590 por Rudolf Goclenius. Na obra, a definição de psicologia refere-se ao estudo da alma, psique ou da mente. A partir daí, o termo começou a se popularizar gradativamente, e em 1879, quando a psicologia como ciência nasce se separando da filosofia, com a criação do laboratório de psicologia por Wilhelm Wund na universidade de Leipzig na Alemanha, ela torna-se a ciência da mente e do comportamento.

Mas é interessante observar que no imaginário das pessoas, e até mesmo de profissionais da área da saúde, persiste a definição da psicologia como o estudo da alma, e vez por outra o encontramos em artigos e entrevistas. Esta conceituação não é a mais adequada, por várias razões. Primeiramente, quando se fala em alma remete-se, em maior ou menor grau, à crença na existência de algo “imaterial”, da qual não se tem comprovada cientificamente a existência. Desta forma, como se pode estudar cientificamente algo que não se pode identificar com clareza, nem manipular de alguma forma? Em segundo lugar, existe uma conotação místico/religiosa quando se fala em alma, pois se pressupõe a existência de algo que persiste à vida do corpo. Assim, seria impossível que ateus, agnósticos ou outros que negassem a existência de algo além do corpo pudessem ser psicólogos, pois ou seriam psicólogos, admitindo essa entidade que controla o comportamento, ou não poderiam ser ateus ou agnósticos.

Atualmente, o corpo científico oficial reconhece que o cérebro é responsável pelo controle e manifestação do comportamento. Existe uma base biológica que permite que possamos nos lembrar, pensar, prestar atenção ao mundo, nos relacionarmos com os outros e amar. E essa base, o cérebro, pode ser manipulada e controlada de várias formas, sem que seja necessário considerar a existência de algo supramaterial. Isso não quer dizer que a psicologia é contra as crenças das pessoas; crer em algo pode ser um bom elemento de prevenção de sofrimento mental. Quer dizer somente que é fundamental deixar demarcadas as fronteiras entre as crenças religiosas e espirituais e a ciência. Só assim será possível fazer boa ciência e deixar que as pessoas mantenham as suas crenças, sem conflitos diretos com o conhecimento científico.

Afinal, nunca é demais dizer, religião e ciência são coisas diferentes, tratam de problemas diferentes; se a religião diz como as pessoas devem se comportar para encontrar a paz ou a salvação, a ciência se ocupa de compreender como o mundo funciona. Por estas razões, é mais acertado dizer que a psicologia é a ciência do comportamento, ou da mente, e não o estudo da alma. Ao fazer isso, mantemos cada coisa em seu lugar.

 

*Publicado no jornal O Nacional, de 16 e 17 de fevereiro de 2013.

 

domingo, 13 de janeiro de 2013

O que funciona no tratamento da depressão?

 
Há algum tempo, a depressão foi considerada o mal do século. Infelizmente este título lhe faz jus, tendo-se em vista os enormes prejuízos sociais e laborais que este transtorno é capaz de gerar.

Estatísticas recentes da Organização Mundial da Saúde apontam que entre 10 e 20 por cento da população já teve ou terá um transtorno depressivo ao longo de sua vida. Resumidamente, os principais sintomas que a depressão apresenta são perda do interesse ou prazer, humor deprimido, mudanças de peso sem serem programadas por dietas ou outras intervenções, insônia ou sono excessivo e fadiga. Pode ocorrer também irritabilidade com agitação, sentimentos de culpa excessivos e dificuldade de concentração, além de pensamentos relacionados com a morte. Estes sintomas precisam estar presentes por, pelo menos, duas semanas, durante todos os dias ou por boa parte dos dias. Portanto, é plenamente compreensível que este seja um transtorno preocupante e incapacitante para as pessoas.

De forma diferente de outras condições médicas, a depressão é um quadro complexo que exige dos psicólogos, psiquiatras e demais profissionais da saúde uma atenção para o diagnóstico e o tratamento. Isso se deve ao fato de que os transtornos mentais são causados, em parte, por fatores biológicos, como a genética, e em parte por fatores comportamentais, como por exemplo a criação, relacionamento com as pessoas significativas e o estresse ambiental. Essa combinação complexa de fatores é única para cada paciente, e precisa ser levada em conta no diagnóstico e no tratamento. Sem atacar estas duas pontas, o problema permanecerá existindo com intensidade.

Não existe atualmente uma fórmula única e infalível para o tratamento da depressão. Embora a indústria farmacêutica avance a cada dia, oferecendo novas estratégias mais eficientes no combate aos sintomas depressivos, dificilmente uma medicação sozinha terá a palavra final no tratamento deste transtorno. Em pesquisa recente publicada pela PLOS ONE, onde Arif Khan, da Northwest Clinical Research Center de Washington, fez um levantamento com 13.802 pacientes que participaram de estudos sobre a depressão entre os anos de 1979 e 2001, foi identificado que o melhor tratamento contra os sintomas depressivos é uma combinação entre psicoterapia e a administração de medicamentos. Esse resultado foi melhor em comparação com a administração isolada de medicamentos e melhor também do que a psicoterapia somente. Assim, há sólidas evidências que é a combinação entre psicoterapia e medicamento o que faz a diferença no tratamento dos quadros depressivos.

Resta por fim lamentar que os convênios não sejam suficientemente sensíveis a estes dados de pesquisas. Focados ainda nos tratamentos médico-biológicos tradicionais, são raros os que aceitam cadastramento de psicólogos para tratamento psicoterápico. Muito se melhoraria a qualidade de vida dos pacientes e a velocidade de resposta terapêutica, com menos dias de hospitalização e outros efeitos danosos, se estes dados fossem considerados. Talvez somente por força de lei, que já vem fazendo bons progressos nos últimos anos, e com muita, mas muita reclamação dos conveniados, que esta barreira seja finalmente derrubada.

*Artigo publicado no jornal O Nacional, de 5 e 6 de janeiro de 2013

 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A necessidade de renovação

 
A capacidade de adaptação ao ambiente é uma das propriedades dos seres vivos. Esta habilidade permite que o organismo e as espécies se ajustem às mudanças ambientais normais e esperadas, tanto quanto àquelas que não estão previstas. Sem a capacidade de adaptação e mudança, os seres vivos estariam extintos.

No caso dos seres humanos, há uma combinação fina e complexa entre a adaptação e a capacidade de mudança. Pela nossa herança evolutiva, possuímos uma forte tendência a nos ajustarmos comportamentalmente a uma determinada situação, e após este ajuste não temos muito interesse em fazer novas mudanças de comportamento. Do ponto de vista cognitivo essa estabilidade é importante, pois nos garante certa permanência de respostas de comportamento: se um comportamento funcionou bem no passado, por várias vezes, ele possui boa probabilidade de funcionar bem em situações semelhantes no futuro. Isso explica, em parte, porque é tão difícil mudar velhos hábitos, especialmente se eles foram bastante reforçados.

Mas a mudança é necessária, e periodicamente ela mostra suas exigências. Ela é o indicador inequívoco de que a natureza, o mundo, as pessoas não são estáticos, e isso exige sempre, em alguma medida, uma resposta do organismo. Essas mudanças podem ser superficiais, como as coisas simples do dia a dia como comprar uma roupa nova, ou podem ser essenciais e marcantes; essas exigem os esforços mais profundos e causam as dores mais significativas, porque provocam uma revisão na forma como nos comportamos, como vemos as coisas. Mudanças assim são dolorosas, e por isso acabamos adiando, resistindo, negando.

Estamos novamente nos aproximando de um período que tradicionalmente as pessoas reveem seus comportamentos, conceitos e expectativas sobre a vida. É um momento no qual a mudança pode acontecer mais facilmente porque existe uma sensibilidade para a avaliação e a mudança. Mas estamos falando das superficiais ou das profundas? É uma mudança de visão de mundo? De alguns paradigmas, pelo menos? Os esquemas cognitivos nos dão parâmetros para lidar com o mundo, mas em algum momento eles mesmos necessitam de revisão. Por óbvio que as mudanças superficiais são as mais fáceis, mas as mudanças de referência, de esquema de mundo, são as mais duradouras. O esforço de mudar algum aspecto enraizado de nosso comportamento é grande, mas ele está acompanhado geralmente de bons ganhos.

 
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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O IDEB e os desafios da educação

 
Preocupantes os dados educacionais do último Índice de Educação da Educação Básica (IDEB). O Rio Grande do Sul apresentou uma estagnação da nota no ensino fundamental, e no ensino médio ocorreu uma diminuição do desempenho, de acordo com os resultados apresentados nesta semana.

Cabe então refletir sobre as causas deste desempenho fraco e sobre o que necessita ser feito para melhorar a educação, tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio. São vários os fatores que geraram estes baixos índices, tais como as precárias condições físicas de ensino das escolas públicas, falta de renovação de acervo bibliográfico e investimento em mídias de ensino, além de problemas mais complexos, como a estruturação das matrizes curriculares e a remuneração dos professores. Mas isto não é novidade, pois há vários governos estamos nos defrontando com os mesmos problemas, e as soluções oferecidas são muito pontuais e transitórias. Se juntarmos a isso uma cultura brasileira imediatista e que não valoriza o ensino de excelência com o crescente número de professores sem estímulo intelectual e financeiro para desempenhar o seu trabalho, sem boas perspectivas de carreira, temos a tragédia instalada. Estão aí os números a confirmar.

Não é possível mudar a educação brasileira, aproximando-a de países destacados como a Coréia do Sul, sem alterações profundas e prolongadas. Mas para isso, é necessário rever muita coisa: a formação pedagógica de nossos professores, as propostas de currículo e, principalmente, a forma como o ensino acontece no dia a dia. Também é fundamental termos os pais como aliados no processo educacional, porque de nada adianta delegar para a escola tarefas que devem deles, pois também os pais precisam compreender e auxiliar o trabalho dos professores.

Tal como a educação dos nossos filhos, que não ocorre do dia para a noite, a educação dos nossos alunos também precisa ser inteligente, adequada às necessidades atuais e prevendo o que desejamos para nossos futuros cidadãos e profissionais. E não temos como delegar isso a terceiros, esperando por um milagre. Cada um de nós precisa ser o agente desta mudança hoje. Então, se você tem filhos, se você é estudante ou professor, pense e modifique a forma como está agindo, e faça isso dia a dia, hoje, amanhã, depois. Participe das reuniões de escola, converse com os professores e diretores, veja se a forma como a aula é ministrada faz a diferença na vida dos alunos, se pergunte se este é o melhor ensino possível. Não vai mudar amanhã, mas se o começo não for hoje, jamais acontecerá.

*Publicado no jornal Diário da Manhã, de 28 de agosto de 2012.

 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O cérebro escaneado

 
A compreensão sobre o funcionamento do cérebro está prestes a efetuar um avanço gigantesco. Philip Low, da NeuroVigil, construiu em sua tese de doutorado um algoritmo de análise de ondas cerebrais capaz de decodificar o complexo sistema de comunicação entre os neurônios. Saber qual informação trafega entre as diversas redes neurais é fundamental para se compreender o status de funcionamento do cérebro.

O iBrain, como é chamado o equipamento, consiste em alguns eletrodos capazes de receber ondas cerebrais de várias partes do cérebro. A vantagem, em relação a equipamentos tradicionais, é que o iBrain capta o funcionamento cerebral como um todo e após o decodifica com base no algoritmo de Philip. Esta decodificação permite que um computador possa identificar eventos cerebrais distintos, como a representação de “alto” e “baixo”, que são fundamentais para a constituição de comandos diversos.

 

Um dos primeiros candidatos ao uso do iBrain é o físico Stephen Hawking, professor lucasiano de matemática da universidade de Oxford e considerado por muitos o físico mais brilhante após Albert Einstein. Hawking é portador de uma doença degenerativa, chamada de esclerose amiotrófica lateral, que vem progressivamente eliminando sua capacidade de movimento. Há anos utilizando uma interface que permite sua comunicação através de movimentos oculares, O iBrain pode ser a estratégia que facilitará a Hawking a comunicação, libertando sua mente de sua cada vez mais restrita capacidade de movimentação.

Os avanços tecnológicos permitidos por este recurso irão permitir que, no futuro, pessoas com graves dificuldades de movimentação possam utilizar as ondas cerebrais para comandar próteses, com redução ou sem a necessidade de implantes físicos. Além disso, permitirá um número gigantesco de possibilidades, como o controle à distância de equipamentos diversos.

 
 
 
 
 
 
 
   
 
 

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